Franquias no setor cervejeiro

Os apaixonados talvez digam que não, mas temos que ser sinceros: a cerveja artesanal é um negócio. Embora tenhamos na cabeça a ideia de um produto feito de maneira tradicional, em pequeno volume e de maneira independente, a cerveja está aí para ser comprada, vendida e consumida -se possível- da maneira mais fresca. Como em muitos outros setores da economia, a participação das franquias no mundo cervejeiro era inevitável.

Del otro lado del océano

No Brasil, o negócio Mestre-Cervejeiro.com surgiu em 2004 como site de conteúdo e consultoria, e em 2009 inaugurou sua primeira loja. Dez anos depois, já são mais de 60 espalhadas em todo o país. “Desde a primeira loja, montei o negócio com uma grande preocupação da marca e ambientação de loja. Isso aliado as cervejas artesanais e o trabalho feito nas mídias digitais de disseminar a Cultura da Cerveja, o caminho para formatar o negócio para franquia foi algo natural”, lembra o fundador e diretor da rede, Daniel Wolff.

Segundo ele, a criação do site e a concepção da primeira loja surgiram com o objetivo de atender a demanda dos clientes em saber mais sobre cerveja e ter mais acesso para prová-las. Algo que só aumentou com o tempo, o que leva a um certo desafio para manter a qualidade do serviço. “O desafio é diário, e temos um time de suporte para orientar os franqueados tanto sobre o negócio, atendimento, divulgação com pela transferência de conhecimento de cervejas. Não exigimos qualquer tipo de formação, porém a vontade de empreender tem que ser evidente e também a ‘sede’ por aprender mais sobre cerveja”.

Daniel Wolff

Em um país de proporções continentais, os impostos e a logística são aspectos importantes a levar em conta, mas ser uma rede pode ajudar. “Quando fazemos ações conjuntas de toda a rede, sim, conseguimos comprar melhor do que uma única loja. Como foi o caso da nossa ação de fim de ano junto a Tupiniquim onde conseguimos um ótimo preço para o consumidor final, bem como lançar duas novas cervejas próprias”.

Mas é necessário estar atento às características específicas de cada região e ao perfil do consumidor. “Dentro do nicho das cervejas artesanais o público procura por diversidade e regionalidade. As pessoas querem consumir produtos locais e para isso temos que variar as cartas de cervejas de uma localidade para outra”, explica Wolff, que ressalta que uma franquia não tem por que ser um negócio impessoal. “Na minha primeira loja, onde eu fazia o atendimento direto aos clientes. Cada cliente que chegava que já frequentava a loja, eu sabia dos seus gostos, do padrão de ticket médio, das novidades que ele estava esperando. Fiz muitas amizades atendendo na loja que mantenho até hoje. E isso se replica nas nossas franquias, é muito saudável para o negócio”.

Chegada à Espanha

Um pouco mais tarde da experiência brasileira, a franquia cervejeira chega à Espanha no final de 2018, mas não no formato para lojas e sim para bares. Em dezembro, a marca de Toledo La Sagra anunciou o lançamento do projeto “La Sagrada Fábrica”, que consiste em franquias de bares onde suas cervejas serão o destaque. É verdade que La Sagra já não sei encaixa na definição da AECAI (Associação Espanhola de Cervejeiros Artesanais Independentes) de cervejeira artesanal desde que foi maioritariamente adquirida pelo grupo Molson Coors, mas seu novo projeto mostra que a ideia está aí e deve ganhar mais adeptos no futuro.

“Esse projeto vai aproximar o consumidor final da cerveja artesanal de forma democrática, sem que ele precise ir a lojas ou bares especializados. Que ele encontre um lugar divertido onde se gere cultura cervejeira é um pouco o objetivo que propusemos com esse projeto, e achamos que é o momento ideal”, conta o CEO da La Sagra, Carlos García.

A notícia se espalhou rapidamente na imprensa e, segundo García, houve muita busca de possíveis franquiciados, que agora estão sendo avaliados pela Sagra e pela empresa especializada em franquias contratada para a gestão desses negócios. “Há uma empresa que dará formação aos empregados e apoio em todos os sentidos. Embora ela execute a obra e a implementação e o modelo de negócio, haverá uma retroalimentação entre a fábrica e o franquiciado. Nós nos encarregaremos de dar formação de cerveja e não de atendimento ao cliente”.

Carlos García, fundador de La Sagra

Conforme explica o cervejeiro, La Sagra estará muito “atenta a como se cuida do produto no ponto de venda, desde o serviço até a formação dos empregados para atender os consumidores”.

De fato, para que os clientes se sintam mais próximos da fábrica, os bares contarão com vídeowalls em que poderão ver imagens ao vivo das instalações da Sagra em Toledo. “O consumidor que está tomando uma cerveja La Sagra pode ver o trabalho ao vivo na fábrica. É um conteúdo visual que aproxima o consumidor do processo de elaboração da cerveja”.

O projeto é ambicioso. O CEO da marca toledana espera fechar 2019 com 10 franquicias, chegando a mais de 20 no próximo ano. “Há um plano de expansão bastante rápido porque é um modelo que está muito definido e tem rápida execução. Além disso, não tem – dentro do mundo das franquias – um alto custo na hora de executar porque não tem cozinha industrial, já que é orientado principalmente à cervejaria”, explica García.

Formato do negócio

Os bares “La Sagra Fábrica” terão um espaço de entre 100-200 m2 e exigem um investimento de ao redor de 60-70 mil euros. “Esse é o investimento que o franquiciado deve fazer para toda a instalação da decoração de obras, da cervejaria, da cozinha e do mobiliário para a implementação do local. Se prevê um faturamento de ao redor de 400/500 mil euros/ano em um local com este tamanho e uma taxa de esforço de 12%”, prevê. Além disso, há um royalty de 1% para publicidade para investimento em redes sociais, eventos e marketing direto.

Nos bares, o cliente irá encontrar entre 8 e 15 torneiras, além de todo o portfólio da Sagra e de outras marcas relacionadas, assim como edições limitadas e também marcas convidadas. “Queremos fomentar que haja duas torneiras convidadas para que o cliente saiba que vai encontrar cervejas diferentes para criar cultura cervejeira”, diz.

Larissa

Jornalista e beer sommelière brasileira morando em Madrid desde 2011.

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