Crowdfunding cervejeiro na Espanha

Uma das definições de cerveja artesanal nos Estados Unidos que também se repete em outros países está no fato de ter uma relação próxima com sua comunidade e clientes. O slogan “Think global, drink local” (Pense global, beba local) se encaixa perfeitamente com o setor cervejeiro independente de países como a Espanha, onde a proximidade beneficia todos e se torna evidente nos projetos de crowdfunding, que nada mais são do que iniciativas de financiamento em que são os clientes que doam dinheiro em troca do que o cervejeiro estabeleça.

Um dos precursores em promover um crowdfunding cervejeiro na Espanha foi Garage, que lançou uma campanha em 2016 com o objetivo de arrecadar 400 mil euros para montar uma fábrica nova em Barcelona. “Conseguimos meio milhão de euros em 15 dias. Acho que o mínimo para doar era 50 euros e teve gente que doou quase 20 mil. Depois do crowdfunding somos 228 investidores e somos como uma família, fazemos eventos na nova fábrica, fazemos degustações no centro, eles nos ajudam com algumas coisas, como, por exemplo, procurando bares para vender nossa cerveja”, comemora o sócio James Welsh.

James Welsh, de Garage

O que as pessoas ganham ao investir em um crowdfunding? Isso varia, mas no caso de Garage os investidores vão receber seis cervejas de sua produção especial por ano durante a vida inteira. O resultado foi impressionante: a marca obteve a maior rodada de equity crowdfunding (quando se oferece benefícios e inclusive ações) do site Crowdcube na Espanha até aquele momento.


Montseny aposta nas latas

Na Espanha, ainda são poucas as marcas artesanais que enlatam seus produtos, mas esse número está em alta e Montseny é uma das que começa a investir nesse envase. O desafio, como sempre, está no investimento e para isso a fábrica catalã decidiu fazer um crowdfunding. “O investimento inicial é de cerca de 150.000€ e com o crowdfunding de 15 mil temos o dinheiro para o design e a compra das primeiras latas”, explica o diretor Julià Vallès.

Fábrica Montseny

A campanha, que ainda está aberta – você pode colaborar aqui – aceita doações a partir de 5€ e não há um limite máximo. Faltando 10 dias para o prazo, Montseny já conquistou cerca de 60% do valor esperado. “Escolhemos este canal fazer o público participar no nosso projeto, queremos que nosso simpatizante colabore e que sinta que parte da empresa é sua”.

Os investidores receberão prêmios que variam de acordo com a doação e também podem votar no seu desenho favorito para a lata da IPA de Montseny, que foi a cerveja escolhida pela marca para ser a primeir enlatada. Julia antecipa: “A segunda será a Lupulus, nossa cerveja clara, mas ainda não sabemos qual será a terceira…”.

Latas Montseny

O sistema de enlatado, chamado Canning Line, foi comprado no Canadá e chegará em agosto. “A máquina que compramos tem uma dimensão de acordo com a nossa produção. No nosso país, não conhecemos fabricantes de máquinas de enlatar. Há alemães ou italianos, mas fazem máquinas maiores”. Apesar do investimento alto para oferecer a Montseny em lata, os preços das cervejas em lata serão similares aos de garrafa, já que os custos também são.

Monkey Beer, expansão em diversas frentes

A toledana Monkey Beer foi outra cervejeira que decidiu aderir ao crowdfunding. “Para nós é uma fórmula que se encaixa mais com a nossa maneira de ver as coisas. Preferimos que sejam as pessoas que nos apoiam quem possa obter benefícios, o que é melhor que dá-los ao banco”, explica a responsável de comunicação da Monkey Beer, Eva Díaz.

O objetivo era arrecadar 170 mil euros para a ampliação da fábrica, incluindo as novas máquinas, a criação do Monkey Bar e a ampliação da força comercial para chegar a mais pontos de venda. Os investidores podiam fazer doações de 100€ a 5.000€, pelas quais recebiam recompensas que variavam desde lotes de cerveza até um catering e tour exclusivo na fábrica para 11 pessoas. O objetivo foi conquistado em junho passado dentro do prazo, também pela plataforma CrowdCube, graças à colaboração de 95 pessoas – 70% delas doaram 100€.

“O crowdfunding é uma maneira de chegar a mais gente, de fazer com que outras pessoas façam parte do mundo da cerveja artesanal e, no nosso caso, do mundo Monkey. A doação é feita por pessoas normais que podem se beneficiar de um trabalho duro e não de uma instituição que provavelmente ele nem sabe quem é”, conta Díaz.

Cervecera Libre, onde você escolhe a cerveja

As mulheres por trás da Cervecera Libre são tão livres que para arrecadar dinheiro para a produção de sua Stout recorreram à economia colaborativa. “Ao se tratar de uma stout, devido à alta graduação, ela é cara de elaborar e também costuma ser um estilo que não é tão consumido quanto outros, por isso buscamos esse sistema. No entanto, fugimos das plataformas de crowdfunding e quisemos chamar a iniciativa de economia colaborativa. Realmente foi como uma pré-compra das cervejas, como fazer uma cerveja por encomenda”, conta a sócia Nora Arrastia.

Através do site cuatroperras.com e das colaborações feitas em festivais e eventos de cerveja, elas conseguiram arrecadar 4.500€ em dois meses para poder pagar os custos da fabricação de mil litros da Stout Cuatro Perras. Elas já superaram a meta graças à pré-venda da cerveja e também das camisetas produzidas especialmente para a ocasião com imagens e frases da feminista e anarquista Emma Goldman – você pode adquiri-las aqui, assim como as cervejas.

Um dos pontos curiosos da campanha é que os doadores puderam participar na tomada de decisões, como o nome da cerveja ou alguns de seus ingredientes. “O nome escolhido foi Cuatro Perras e os ingredientes: cascas de cacau, cacau e casca de laranja. O ingrediente foi a vanila e decidimos colocá-la quando a cerveja estava no fermentador”.

Para Nora, iniciativas como essa são muito válidas porque ajudam a divulgar a marca, aproximam os clientes e viabilizam a produção de cervejas de qualidade. “No caso das marcas ciganas, temos que pagar cada elaboração de uma vez, isso nos dificulta um pouco a liquidez e, no caso das receitas especiais e mais limitadas, não poderíamos lançá-las porque somos uma empresa pequena e tempos sempre que manter uma linha de produtos fixos”.

Beba e atue de forma local

Esses são só alguns dos exemplos de financiamento colaborativo em que os clientes têm um papel central. Por que tanta gente decide colaborar financeiramente com as fábricas de cerveja artesanais? Arriscamos dizer que pela cerveja em si, embora possivelmente essa não seja a única resposta. 

Fábrica Garage

Nas feiras, eventos e meet the brewers, o que vemos é que os consumidores adoram essa proximidade, querem saber como é o processo de fabricação, os ingredientes usados, etc. Em que outros setores vemos os clientes sair de casa para ir a um estabelecimento para conversar cara a cara com o fabricante?

Além disso, investir nesses crowdfundings também é uma maneira de defender a independência dos pequenos para que eles continuem sendo acessíveis. A revolução da cerveja artesanal está aí e todos querem ser parte dela.

Larissa

Jornalista e beer sommelier brasileira morando em Madrid desde 2011.

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