Cervejeiros brasileiros pelo mundo

É cada vez mais comum escutar algum conhecido dizer que está indo embora do Brasil para morar fora. Os motivos que levam à decisão são vários e as oportunidades que surgem no exterior, também; mas, como este é um blog sobre cerveja, vamos falar sobre as experiências de quatro “cervejeiros” brasileiros pelo mundo: os desafios encontrados, os aprendizados, as diferenças entre o mercado adotado e o brasileiro e, é claro, sobre cerveja!


Com um currículo invejável no setor, o sommelier de cervejas paulista Claudio Oliveira chegou a Portugal no final de janeiro após receber uma proposta interessante da importadora Skilser, com a qual ele já trabalhava como parceiro de distribuição desde o início de 2017. “Recebi o convite de vir a Portugal estruturar toda a operação no Brasil e em Portugal. Como pai de filhos pequenos, o Brasil se tornou insustentável em vários motivos e, pelo campo profissional, é um desafio gigante e isso me anima muito”.

A descoberta de Portugal (pelos brasileiros)

No setor craft, Portugal ainda dá seus primeiros passos, mas vem avançando rápido, como já contamos neste outro post. “As vantagens no mercado português é que tem um campo enorme para trabalhar e um excelente potencial”, conta Oliveira, que levou para lá sua experiência não só de sommelier, como também juiz cervejeiro, palestrante e professor da Brau Akademie, entre outras, no currículo.

Claudio Oliveira (foto pessoal)

Mas ele também ressalta os desafios de começar do zero em um mercado tão novo: “A diferença entre o mercado brasileiro é basicamente o nível de maturidade, maturidade em termos de perfil de consumo e de tecnologia de produção. Onde Portugal está hoje, o Brasil estava há dez anos. No Brasil já passamos por isso. Rejeição a nossos sabores, principalmente os mais intensos. Falta de recursos, insumos e tecnologia, e principalmente a cultura de se pagar mais caro do que as industriais”, explica.

Mas morar na Europa tem suas vantagens cervejeiras. No momento da entrevista, Oliveira estava em Roma para dar continuidade à parceria com o mosteiro trapista Tre Fontane. “A Europa em si, ‘cervejeiramente’ falando, é um paraíso”, brinca.

Uma das marcas portuguesas que a Skilser distribui é a Mean Sardine, cujo mestre cervejeiro é Daniel Ramiro, ex-Cevada Pura, que também trocou o estado de São Paulo por terras lusitanas. Nada foi muito planejado e a história é cheia de coincidências. Em 2017, quando foi à Itália para seguir com o processo da cidadania, Ramiro recebeu uma proposta do brasileiro Marcos Praça, seu ex-colega de trabalho na Cevada Pura, para trabalhar na Mean Sardine. “O ponto de início foi um festival de cerveja em Padova em junho, que foi a primeira vez que eu ganhei a camiseta da Mean Sardine para representar a marca no stand. E assim começou a história, mas só em agosto eu mudei para Portugal”.

Ramiro ressalta que o mercado português ainda está “engatinhando” se comparado ao brasileiro, também por conta da concorrência com o vinho, cujo consumo faz parte da cultura do país. “Portugal é um país muito centrado no vinho. Portugal está para trás e se vê isso tanto em volume de venda, acesso à informação cervejeira, no desenvolvimento da cultura e também na qualidade de equipamento e capacitação”.

Daniel Ramiro, da Mean Sardine

Onde muitos poderiam olhar para o lado negativo, Ramiro se concentra no que é positivo. Apesar de sua residência oficial ser em Portugal, ele está sempre viajando, já que a Mean Sardine é uma marca cigana. Nossa entrevista, por exemplo, foi feito em Madrid, pois ele passou uma temporada na Espanha fazendo cerveja, divulgando a marca e até dando aulas de ioga, uma de suas paixões. “Para mim, estar sempre viajando é uma curtição absurda. Aqui eu tô sozinho, minha família está no Brasil e não tenho esposa, não tenho filho, nem nada que me prenda em algum lugar”. Por conta disso, os planos de voltar, por enquanto, se restringem às férias. Afinal, não é sempre que basta pegar um trem ou um voo de poucas horas para fazer uma cerveja com De Molen, ToØl ou Lervig.

Do Brasil para a Paulaner

Enquanto os dois paulistanos ainda se adaptam ao novo lar, a engenheira de alimentos e sócia do Instituto da Cerveja, Kathia Zanatta, lembra dos seus tempos de Alemanha com saudosismo. Em 2005, quando ainda estava cursando a graduação, ela fez um estágio de um ano na Paulaner, passando por todos os departamentos da cervejaria.

Nem passou tanto tempo, mas as mudanças nesse período foram significativas, como ela mesma explica. “De lá pra cá, nosso mercado mudou muito! Naquela época, o mercado de lá era bem mais maduro que o daqui. No lado de consumo, mulheres sempre consumiram cerveja culturalmente por lá e era (e é, claro) muito comum ver uma mesa de senhoras bebendo cerveja. Aqui no Brasil isso era muito mais raro e tem mudado com o tempo, principalmente nas novas gerações femininas. Já na produção, encontrei um pouco de resistência masculina e sim, certo preconceito, que se dissipou durante meu período de trabalho por lá. Em contrapartida, tinham outros profissionais como meu chefe direto que me incentivavam e impulsionavam a crescer e me desenvolver na área.

Khatia Zanatta na época de Paulaner (Foto pessoal)

Trabalhar na Paulaner foi a primeira experiência profissional de Kathia na área, que depois desse período voltou ao Brasil e trabalhou na Schincariol por cinco anos, até criar junto ao seu marido, o também sommelier e mestre cervejeiro Alfredo Ferreira, o Instituto da Cerveja.


Para ela, a vivência no exterior foi determinante tanto do ponto de vista pessoal quanto profissional. Entre as lições que trouxe na mala está “a visão do respeito pela cultura do outro, no que diz respeito à fabricação de cerveja em si ou outros hábitos culturais. Aprendi a entender o impacto da história no processo e tradição alemã, valorizando a pesquisa intensa que as universidades e empresas investem para melhorar processos e qualidade do produto. Aprendi que produzir cerveja é uma ciência complexa, com inúmeros pontos de controle! E que a diversidade em opções de consumo (estilos diferentes) trazem um colorido pra esse universo já tão especial. Foi lá meu primeiro contato com diferentes estilos de cerveja, que de fato, me ajudaram a ter certeza de que era com isso mesmo que queria pra sempre trabalhar!”.

Cerveja brasileira nos países nórdicos

Subindo um pouco mais ao norte da Europa, chegamos à Finlândia. Se você nunca imaginou que seria possível encontrar uma cerveja artesanal com um toque brasileiro na Finlândia, fique tranquilo! Nem o próprio proprietário da marca Cool Head, Cleber Gonçalves, havia pensado nisso antes de criar a empresa, em 2014.

Gonçalves foi passar uma temporada na Inglaterra, de lá acabou indo para a Finlândia, onde trabalhou no setor de tecnologia, e só depois transformou seu hobby de homebrewer em profissão. “A fábrica é fruto de um longo planejamento, comecei cinco anos atrás com os planos. Abri a companhia em 2014, mas só consegui começar a fabricar em 2016. Nossa primeira cerveja foi a IPAnema (west coast IPA) que foi lançada por volta de março de 2016”.

De lá para cá, a Cool Head já fez mais de 50 rótulos, embora os fixos sejam 17 – bastante focados em NEIPAs, sours e gose. O toque brasileiro fica por conta das frutas presentes nas cervejas, como a goiaba na Passion Guava Sour e a manga na Mango Chili Gose. Para fabricar usando esses ingredientes tropicais, Gonçalves importa as frutas da Colômbia, onde conseguiu um bom acordo comercial.

Frutas tropicais presentes nas cervejas da Cool Head

Exportar suas cervejas para o Brasil seria complicado, já que o tempo acabaria comprometendo a qualidade; mas a Cool Head já pode ser encontrada em mercados como a Rússia e, em breve, também na Espanha. A marca do brasileiro foi uma das convidadas a participar do principal festival espanhol em março, o Barcelona Beer Festival.

Sobre as diferenças cervejeiras entre os dois países, Gonçalves é categórico: são muitas e não se limitam ao clima. A Finlândia é um país bem restritivo em relação à venda de bebidas alcoólicas e qualquer bebida que tenha mais de 5,5% de álcool só pode ser vendida nas lojas Alko, de propriedade estatal, em horários limitados e com impostos bastante elevados. Ainda assim, o consumo de cervejas artesanais vem crescendo no país e atualmente já existem cerca de 80 fábricas – um número significativo se levarmos em conta que a população do país é de 5,5 milhões de pessoas.

Coração dividido

Qualquer imigrante sabe que morar fora significa ter sempre o coração um pouco dividido. No caso de Kathia, ela até cogitou a possibilidade de ficar na Alemanha na época em que trabalhou na Paulaner. “Voltei porque havia trancado a faculdade e queria com certeza terminá-la. Depois, a trabalho, voltei praticamente pelo menos uma vez por ano para  a Alemanha, mas sempre me sinto nostálgica e com vontade de voltar a morar em Munique. Como as coisas por aqui estão indo bem com o Instituto, permaneço por aqui, mas com certeza metade do meu coração é alemão”.

Já os brasileiros que seguem no Velho Continente mantém os laços – também cervejeiros – com o Brasil, afinal, é impossível esquecer todas as influências. Em uma das vezes em que trocou a fria Estocolmo pelas praias do Rio de Janeiro, Cleber Gonçalves fez a NEIPA colaborativa Swap com o pessoal da OverHop Brewing, que contava com acerola na receita. Infelizmente, ele mesmo não pode provar, já que quando voltou à casa, a cerveja ainda não estava pronta. “Mas dizem que ficou deliciosa!”, comenta.

Por conta, entre outras coisas, dos altos custos de produção no Brasil, a importação de cervejas brasileiras é praticamente inviável. Mas, para matar a saudade, Claudio Oliveira “dá um jeitinho”: “já estou providenciando várias cervejas colaborativas entre brasileiros e portugueses. A Dádiva, a Heróica e recentemente uma do sul do Brasil já fixaram colabs em Portugal”, comemora.

Encontro brasileiro em Madrid

Se no século XX o Brasil foi o destino de muitos imigrantes, parece que desta vez somos nós que estamos redescobrindo a Europa. Se você também é  ou conhece um brasileiro que foi morar no exterior e trabalha com cerveja, deixe um comentário. Vamos manter esse intercâmbio!

Larissa

Jornalista e beer sommelier brasileira morando em Madrid desde 2011.

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