Cervejas artesanais russas

A Copa do Mundo na Rússia provou não só que os anfitriões eram capazes de chegar muito mais longe no evento do que muita gente pensava, como também (para quem teve a sorte de ir até lá) que a cena craft beer no país vem crescendo muito e produzindo cervejas bastante interessantes.

Uma das pessoas que visitou o país um pouco antes da Copa e aproveitou para conhecer as cervejas artesanais na Rússia foi a beer sommelière (não atuante) e entusiasta do setor Fernanda da Costa. “Não esperava encontrar muitas opções de cervejas artesanais e tinha bastante. Assim como no Brasil, os bares especializados tinham muitas torneiras, logo, muita variedade. Tinha muito mais produção local – mesmo quando não cerveja da cidade, mas cerveja russa- do que cervejas de fora. Embora as alemãs figuravam em diversos bares”, comenta Fernanda.

A percepção que Fernanda teve do mercado russo é comprovada com números. Segundo a associação nacional de fabricantes de cerveja artesanal Craft Depot, o número de fábricas cresceu 48% entre 2016 e 2017, chegando a 217; enquanto a produção cresceu 22% no mesmo período, superando os 640 mil hectolitros.

Festival Craft Depot

Portas abertas

No entanto, a produção de cerveja artesanal representa apenas 0,86% da produção total de cerveja no país, ou seja, ainda há muito espaço para crescer, tanto dentro quanto fora do país. E uma prova de que os russos querem estreitar o relacionamento com os estrangeiros é o festival Big Craft Day, que aconteceu em maio em Moscou e contou com mais de 40 fabricantes de fora, incluindo Espanha, Estônia, Escócia e Itália.

Teve até a presença de um brasileiro, o fabricante Cleber Gonçalves, da marca Cool Head. “Esse festival foi um dos mais legais e mais bem organizados que já participei. Um prédio gigantesco a poucos metros da Praça Vermelha, com um monte de cervejarias participando e ótimas cervejas de todo o mundo”, diz Gonçalves, que já vem exportando cerca de 800 litros/mês ao país. “No momento as exportações para a Rússia são pequenas, mas como nossas vendas em exportação ainda estão começando, esse pallet é muito bem-vindo! Nos ajuda a estabelecer-nos em um mercado gigantesco”, celebra.

Tap Take Over de Cool Head

Outra marca de fora estrangeira participante no Festival Big Craft Day foi a basca Laugar, que já está presente no mercado russo há quase dois anos. “Nossas cervejas tiveram uma boa recepção desde o primeiro momento e no festival isso ficou claro. Me surpreendeu muito que havia gente que me seguia nas redes sociais, me conhecia e pediu para tirar uma foto comigo”, conta Txus Cabrera, do departamento comercial da marca.

Txus, de Laugar

Sobre a cervejas provadas, Gonçalves é só elogios. “Algumas cervejarias russas certamente merecem lugar entre as melhores do mundo, e a qualidade em geral tem aumentado constantemente”, enquanto Cabrera é mais comedido. “Existe um público experiente e crítico, bastante maduro e que busca cerveja de qualidade. Quanto às cervejeiras, como em qualquer outro lugar, havia de tudo: cervejas boas, cervejas medíocres e cervejas bastante justas”.

Estilos

No país que dá nome a um dos estilos de cerveja mais apreciados do mundo, é óbvio que a Russian Imperial Stout faz sucesso; mas as IPAs também abocanham uma grande fatia do mercado, assim como as lagers. Mas o mercado russo também está ávido por novidades. “As New England e Milkshake IPAS e APAS estão crescendo rápido. No último ano, tivemos um crescimento significante em sours, como gose e berliner weisse”, conta o gerente do bar Eric The Red, Stanislav Obraztsov. Esse é um dos bares mais populares em Moscou, onde são vendidos entre 6 e 7 mil litros de cerveja por mês.

Bar Eric the Red

Na cervejaria e pizzaria moscovita Jawsspot, que faz parte de uma pequena cadeia de bares instalada também em outras cidades do país, além dos estilos mencionados, há outros que vêm sendo procurados, conforme explica o gerente, Dmitry. “No momento todo mundo também procura  muito as Imperial Stouts e cervejas complexas, incluindo o estilo gueuze. Também existem várias cervejarias na Rússia que estão experimentando envelhecimento em barril”.

Ambos afirmam que o crescimento do mercado nos últimos anos foi impressionante, mas parece estar chegando a um período de estabilização. “O mercado de cervejas artesanais está crescendo rapidamente, mas não tão caoticamente quanto costumava. As pessoas que começam seus negócios em cerveja artesanal têm que ser bem experientes e, claro, têm que amar cerveja artesanal, caso contrário, ele logo morrerá. Os regulamentos legislativos são um pouco complicados, o que às vezes é um desafio”, explica Obraztsov.

Curiosidades sobre as cervejas russas

No país da vodka, a cerveja só passou a ser considerada uma bebida alcoólica em 2012. Antes disso, qualquer bebida que tivesse menos de 10% de álcool não era classificada como alcoólica. “Os russos estão aprendendo a apreciar cervejas de um teor alcóolico mais moderado”, diz Gonçalves. Algo fundamental para um país onde o consumo excessivo de bebidas alcoólicas chega a ser uma questão de saúde pública e o governo vem tomando medidas duras para restringi-lo.

Na verdade, embora o número de cervejarias artesanais tenha crescido nos últimos anos, a produção geral (incluindo marcas industriais) caiu significativamente. Em 2010, o país chegou a produzir 10 bilhões de litros, enquanto nos 11 primeiros meses de 2015 produziu “apenas” 6,59 bilhões de litros, voltando a se recuperar em 2016, quando a Rússia ficou em 5º lugar no ranking mundial de produtores de cerveja.

Uma das grandes curiosidades sobre a venda de cerveja no país está no formato. Em 2015, o formato mais popular de comercialização de cerveja no país era a garrafa PET, responsável por 42% das vendas; enquanto a cerveja em torneira vinha em segundo lugar, com 40% de participação, seguida pelas garrafas de vidro (12%) e latas (apenas 6%). Para evitar o problema de consumo excessivo de cerveja, em 2017 entrou em vigor a proibição da venda de cervejas em garrafas PET com capacidade superior a 1,5 litro, que eram responsáveis por 20% das vendas da bebida no formato PET.

Provamos e recomendamos:

Como sempre, o segredo é beber com moderação e com qualidade, por isso, perguntamos aos entrevistados quais foram suas cervejas, marcas e bares favoritos durante a visita ao país:

Larissa

Jornalista e beer sommelier brasileira morando em Madrid desde 2011.

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