Cerveja artesanal sem álcool

A conscientização sobre os perigos de beber e dirigir, os controles mais severos nas estradas e a preocupação com a saúde e o bem-estar vêm promovendo uma mudança importante no perfil dos consumidores e, consequentemente, no mercado de cerveja, levando ao crescimento da comercialização das sem álcool. Segundo a AB Inbev, a expectativa é de que, em apenas oito anos, 20% da cerveja consumida no mundo seja sem álcool. Mas por que as artesanais parecem não seguir tendência?

No Brasil, o consumo de cervejas sem álcool vem crescendo cerca de 5% ao ano e em 2014 elas representavam 1% do mercado total, com predomínio das grandes marcas. A micro cervejaria catarinense Opa Bier chegou a fabricar uma Pilsen sem álcool, mas o produto foi descatalogado.

Já na Espanha, o cenário é um pouco diferente: o país é líder mundial em consumo de cervejas sem álcool, que representaram 14,3% das vendas totais da bebida em 2015, segundo a associação Cerveceros de España. No entanto, são poucos os fabricantes artesanais que se arriscam nesse nicho de mercado, como é o caso da microcervejaria madrilenha Villa de Madrid. “Tivemos a ideia (de fazer uma cerveja sem álcool) desde o princípio. Desde a ideia inicial levamos 2 anos, nos quais fizemos mais de 100 testes até chegar ao produto final”, conta o diretor comercial da marca, Francisco Ropero.

O resultado é a cerveja “Chula Sin”, uma ale muito refrescante e fácil de beber que vem sendo bem recebida no mercado. “Esperamos ter uma produção este ano de uns 50 mil litros, de um total de 280 mil da fábrica”.

A outra única fabricante espanhola que produz uma cerveja artesanal sem álcool é a Cerveza Salvaje, de Castilla La Mancha. O produto surgiu para atender ao pedido dos próprios clientes da marca, que mudou de endereço, mas não perdeu a clientela do Tap Room. “Foram eles quem nos pediram uma cerveja sem álcool para depois poder voltar para casa de carro”, contou o mestre-cervejeiro José Gregorio Quintanar. Entre os primeiros testes e o lançamento da “Cero Coma” (expressão espanhola para “rápido”, usada normalmente para dizer que vai fazer alguma coisa rapidinho) se passou quase um ano.

O desafio técnico da artesana sem álcool

Para fabricar uma sem álcool, um dos processos mais usados é a fermentação a temperaturas mais baixas que o padrão, que é interrompida logo depois do seu início. Assim, nem todo o açúcar é fermentado, o que faz com que grande parte dessas cervejas seja mais adocicada ou tenha um sabor mais acentuado de malte. “Para sua produção necessitávamos uma fermentação extraordinariamente limitada. Conseguir açúcares pouco ou nada fermentáveis e o controle da temperatura na fermentação para que a levedura quase não produzisse álcool foi o maior desafio”, explica Quintanar.

Ele também menciona a questão sanitária. “Uma cerveja sem carece do seu principal conservante, o álcool, por isso temos que ser muito mais estritos com a limpeza dos equipamentos e das máquinas. São cervejas muito mais sensíveis à contaminação”.

Já Ropero fala sobre o desafio de conseguir produzir uma cerveja sem álcool que agradasse os paladares dos exigentes consumidores de cerveja craft. “Os desafios são vários: fazer uma sem álcool só com água, malte, lúpulo e levedura, sem conservantes, corantes, saborizantes nem espumantes e conseguir que tenha bom odor e seja saborosa. Depois conseguir pouca densidade e uma levedura adequada para fazer uma cerveja com tão baixa graduação e não tirar nada da mesma (no processo)”.

Todos esses aspectos parecem ter desmotivado os cervejeiros independentes a apostar pela sem álcool no Brasil e na Espanha, mas esse cenário deve mudar em breve, apostam os especialistas. “Nos consta que várias fábricas artesanais tentaram e supomos que, ante a grande dificuldade que existe, acabaram desistindo. Depois do grande sucesso que estamos tendo com o produto, acreditamos que em breve sairão outras artesanas sem álcool, algo que nos alegra, já que entre todos chegaremos a mais consumidores que poderão apreciar o incremento da qualidade e passarão a beber cerveja artesanal”.

Para Quintanar, os fabricantes independentes espanhóis são influenciados pelas tendências americanas e do centro da Europa, com destaque para as cervejas de alta graduação alcoólica e as muito lupuladas, e esquecem do nicho “0,0”. “Acreditamos que uma cerveja baixa em álcool não deva nada às outras se estiver bem feita. O verdadeiro desafio é fazer cervejas bem feitas, independentemente de sua graduação alcóolica ou do nível de lupulado”.

Definição:

O que é uma cerveja sem álcool? Ao contrário do que muita gente possa pensar, para ser classificada como sem álcool, uma cerveja não precisa ser “0,0”. Atualmente, uma cerveja é classificada como sem álcool no Brasil desde que tenha um ABV (Alcohol per Volume) de até 0,5%, pois possui um porcentual mínimo e seu consumo não produz efeitos sobre o consumidor.

Testes realizados pelo INMETRO mostraram que pessoas que haviam consumido até 700 ml de cerveja sem álcool passaram no teste do bafômetro.

Já na União Europeia, a lei estabelece que cervejas com um ABV de até 1% podem ser consideradas sem álcool.

Sem álcool recomendadas:

  • BrewDog Nanny State, 0.5% 
  • Erdinger Weizen Alkoholfrei, 0.5%
  • Schneider Weisse Mein Alkoholfreies Tap 3, 0.5%
  • Franziskaner Alkoholfrei, 0.5
Larissa

Jornalista e beer sommelier brasileira morando em Madrid desde 2011.

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