O cenário atual da cerveja artesanal em Portugal

Além das tradicionais belgas, alemãs e checas, e das sempre inovadoras inglesas e nórdicas, no velho continente o boom da cerveja artesanal se espalhou para países onde o consumo de cerveja sempre foi alto, mas restrito à produção industrial; como é o caso de Portugal. O cenário atual da cerveja artesanal em Portugal é surpreendente. 

Conhecido mundialmente pelos seus vinhos, Portugal vem ganhando um espaço no coração dos amantes de craft beer e o número de marcas no país já fica em torno a 100, além do crescimento importante de lojas, bares, tap rooms, festivais e outros eventos que movimentam o mercado, especialmente em Lisboa e no Porto.

Passarola Brewing

O fenômeno da cerveja artesanal é recente no país e muitas fábricas deram seus primeiros passos nos últimos cinco anos, como é o caso da Oitava Colina, Cerveja LETRA, Mean Sardine e Passarola. Entre essas quatro marcas entrevistadas, é possível notar alguns pontos em comum: foco na qualidade, olho no mercado estrangeiro (mas sem tirar os pés do chão), fomento do ambiente colaborativo e inovação sem esquecer as raízes.

Uma das mais reconhecidas é a LETRA, que lançou sua primeira cerveja em 2013, depois de muito trabalho, como relembra o Brewing Engineer Filipe Macieira. “Eu e Francisco Pereira éramos colegas no curso de Engenharia Biológica. (…) Passaram dois anos desde o final do curso, e em 2010 iniciamos a ideia de produzir cervejas premium com elevada qualidade e sem qualquer tipo de aditivos, a nossa proposta de valor era produzir algo de nicho, uma cerveja com ingredientes 100% naturais, uma cerveja real. Dedicamos três anos à investigação e desenvolvimento de toda a estratégia, desenvolvemos os nossos equipamentos e as nossas receitas de cerveja. Surgiu no mercado em Outubro de 2013 a LETRA-Cerveja Artesanal Minhota”.

Nesses quatro anos, a LETRA cresceu – e muito. Atualmente são produzidos 30 rótulos diferentes por ano, sendo 9 receitas regulares e outras sazonais. A fábrica instalada na região do Minho, norte de Portugal, tem capacidade para produzir cerca de 20 mil litros/mês, um número expressivo para uma empresa tão recente, além de contar com um impressionante taproom.


Mas também há projetos menores chamando a atenção dos clientes, como é o caso da Passarola, uma marca cigana que surgiu no formato homebrew e hoje já conta com três sócios, três rótulos fixos e algumas sazonais, produzindo cerca de mil litros/mês. Sabe aquela história de “nunca fiz amigos bebendo leite”? No caso deles, ela é bem verdadeira. “Nós trabalhamos todos em áreas diferentes. Conhecemo-nos numa das primeiras cervejeiras Lisboetas, a LX Brewery, que além de cervejeira era também uma loja de material para homebrewing. O Rob era o cervejeiro da LX em inícios de 2014, altura em que eu por vezes ia ajudá-los e partilhar algumas cervejas”, conta o sócio André Pintado.


De casa para a fábrica

Quem também passou de consumidor para homebrewer e, posteriormente, “fabricante oficial” é o sócio da Mean Sardine Rolim Carmo.Ao trabalhar fora de Portugal durante alguns períodos, ganhei o gosto por vários e ‘diferentes’ estilos de cerveja. No meu regresso constatei que não as conseguia encontrar em Portugal, na altura reduzido a duas grandes marcas e com a mesma oferta de produto. Comecei a ter interesse pelo processo, produzi para mim, depois para amigos”. Em 2013, a Mean Sardine se tornou oficialmente uma marca, fundada por Carmo e sua esposa, Rita Burnay. Atualmente, além deles, fazem parte da equipe mais duas pessoas, incluindo o mestre-cervejeiro brasileiro Daniel Ramiro. Com capacidade de produção de 3 mil litros/mês na fábrica de Mafra (Lisboa), atualmente eles têm 6 rótulos fixos.

Danie Ramirol, Mean Sardine

Mudar o cenário e fazer algo diferente – e bom – é a marca dos novos cervejeiros portugueses. “O nosso compromisso sempre foi com a qualidade. A nossa missão desde o início era alterar o panorama cervejeiro em Portugal. Penso que conseguimos, no mínimo, contribuir bastante para que isso hoje seja uma realidade. Mas uma realidade ainda muito discreta, com muito por onde crescer”, explica um dos sócios da lisboeta Oitava Colina, Pedro Romão. A marca produz atualmente cerca de 10 mil litros mensais, com a fabricação de quatro rótulos regulares e cervejas sazonais, além das colaborações.

Sócios da Oitava Colina

De Portugal para o mundo

É inevitável: em um setor em que os consumidores estão sempre em busca de algo novo, as cervejas portuguesas têm demanda em outros países. Com exceção da Passarola, com produção menor, as outras três marcas já exportam seus produtos, especialmente para países europeus como França, Inglaterra, Suíça e Bélgica.

Mas eles preferem ser cautelosos. “Não queremos dar passos maiores que a perna e queremos crescimento sustentado”. Romão, da Oitava Colina, explica que há procura em outros países, mas que também há a preocupação de oferecer uma cerveja fresca. “O que queremos é que beber uma Urraca seja uma experiência igual quer esteja no Porto, em Londres ou em Pequim”. E no Brasil? De acordo com o empresário, muitos brasileiros que estiveram em Portugal de férias ou alguém levou para eles provarem acabam entrando em contato para falar do interesse em adquirir a cerveja no Brasil, mas ainda falta “encontrar o parceiro certo”.


Macieira, da LETRA, expressa a mesma preocupação. “Temos feito viagens por todo o mundo em busca das melhores práticas de distribuição e tratamento da cerveja nos postos de venda. A nossa principal preocupação é a qualidade da cerveja no ponto de venda e para isso toda a cadeia de valor tem de trabalhar de uma forma séria e adaptada ao sector da cerveja artesanal. Nesse sentido os desafios são o transporte e armazenamento em frio”. No Brasil devem chegar apenas as cervejas LETRA maturadas em barrica.


Antes que os brasileiros se desesperem, há boas notícias: as cervejas da Mean Sardine estão chegando e as seis referências da marca estarão disponíveis.


Colaborações

Se há algo que define os fabricantes independentes de cervejas artesanal é o ambiente colaborativo. Fazer uma cerveja em parceria com outra marca é, além de uma ótima oportunidade para aprender e estreitar o relacionamento, uma chance importante de entrar em um mercado estrangeiro quando a colaboração é feita com alguém de outro país.

A LETRA, por exemplo, já fez colaborações com diversas marcas, inclusive algumas brasileiras. Na verdade, eles foram pioneiros no intercâmbio Brasil – Portugal. “Nanquim é o nome da cerveja que fizemos em colaboração com a Cevada Pura de Piracicaba (São Paulo). Esta cerveja foi produzida em Portugal em Maio de 2015 e apresentada em Fevereiro de 2016 em Portugal. E em Dezembro de 2016 fizemos uma edição no Brasil que ficou maturando em barrica de cachaça que foi apresentada em setembro no Brasil”.

Fábrica – LETRA

Depois veio a saison LETRA Ibérica, feita com a Dádiva e Heroica. “O mercado brasileiro tem enorme potencial, visto que é um país que bebe muita cerveja e tem um público imenso que aprecia qualidade e que tem poder de compra para este setor com produtos mais caros do que os produzidos em massa. Também pelo facto do Brasil ser um país com uma enorme diversidade de frutas e plantas permite o desenvolvimento de cervejas com características muito locais, que nos parece ser esse o futuro da cerveja artesanal a nível mundial”, diz Macieira.

Mean Sardine e Passarola também já fizeram uma cerveja colaborativa entre eles, a Gose Alcateia. “As colaborações estiveram sempre na prioridade da Mean Sardine. Os resultados são sempre enriquecedores, quer nas cervejas criadas, quer no convívio e troca de experiências”.

Identidade portuguesa

Enquanto muita gente acha que em um país famoso pelo vinho não há espaço para a cerveja artesanal, os cervejeiros pensam exatamente o contrário e apostam na parceria entre cerveja e vinho (presente através de suas barricas), que já é um sucesso. “A maturação em barrica é já uma realidade, uma vez que temos acesso fácil a vinhos portugueses de referência mundial. A LETRA tem neste momento um projeto com 50 barricas (Letra on OAK) com barricas de vinho do Porto, Moscatel, Aguardente, Whiskey, Peated Whiskey, Cabernet, Chardonnay, etc”, conta Macieira.

Na Oitava Colina, o toque português está presente também nos nomes. “Nós somos a Oitava Colina de Lisboa e os personagens que criámos divagam pelo cenário idílico da colina da Graça. O objetivo então é casar a personalidade do personagem com a personalidade da cerveja”.


Já a Mean Sardine não só usa barricas de vinho português e licores típicos como a Ginjinha – uma colaboração com a De Molen chamada Ginja Ninja-, como também utiliza ingredientes portugueses, como figos do Algarve, chá de Açores, pêra rocha.

Presente e futuro da cerveja artesanal em Portugal

Mas para um país que está dando apenas seus primeiros passos no mundo craft, é importante avançar pouco a pouco. “Por ser muito verde, aquilo que o mercado pede neste momento são cervejas fáceis de beber (mas não fáceis de fazer): Pale Ales, Pilsners, Hefeweizens. No entanto, isso não significa que não haja cervejeiras a arriscar em cervejas mais arrojadas: Barrel aged, com Brett, Lacto, etc.”, explica Gonçalves, da Passarola.

Essa opinião é compartilhada por Romão, da Oitava Colina. “Na procura temos um forte componente do turismo que é em grande parte mais informado acerca da cerveja e que consome com menos desconfiança. É uma fase importante para o mercado, digamos de início de pré-maturidade, em que é fundamental que a oferta seja feita com qualidade para que se quebrem preconceitos (e há muitos em Portugal) relativamente à cerveja”.

LETRA

Iniciante, mas em constante evolução. Essa é a definição de Macieira, da LETRA. “Atualmente têm existido cada vez mais marcas com um boost de energia e criatividade não só a nível de receitas, mas também ao nível do design e abordagem ao mercado. O mercado está a evoluir, cada vez mais as IPA e as IPA estão a ganhar mercado, mas as sour ales e berliner weisse estão a ganhar também bastante terreno”.

Pelo jeito, crescimento sustentável é a palavra de ordem. E é exatamente por isso que Portugal vem se tornando um destino cervejeiro importante na Europa. Se você está de viagem marcada para lá, pode apostar que vai voltar com a mala cheia!

Todas as fotos usadas na matéria são de divulgação. A foto de abertura é da Cerveja LETRA.

Rótulos fixos das marcas entrevistadas

Mean Sardine

  • Black IPA Voragem
  • Pale Ale Amura
  • IPA A Walk in Madeira
  • Imperial Stout Ginja Ninja (colab com De Molen)
  • Imperial Stout Tordesilhas
  • Dessert Stout Portucale (com figo seco embebido em vinho do Porto)

Passarola

  • APA Marquês de Pale Ale
  • American IPA Chindogu
  • American Stout Hadron Collision

Oitava Colina

  • Porter Zé Arnaldo
  • IPA Urraca Vendaval
  • Lisbon Lager Florinda
  • APA Joe da Silva

LETRA

  • Letra A – Hefeweizen
  • Letra B – Bohemian Pilsner
  • Letra C – Oatmeal Stout
  • Letra D – American Red Ale
  • Letra E – Belgian Dark Strong Ale
  • Letra F – American IPA
  • Letra on Oak – Port Barrel Aged Dark Ale
  • Letra on Oak – Peated Whiskey Barrel Aged Baltic Porter
  • Letra on Oak – Barrel Aged Portuguese Grape Ale
Larissa

Jornalista e beer sommelier brasileira morando em Madrid desde 2011.

2 Comments
    1. Oi, Thomas! O objetivo da matéria não é fazer um ranking das melhores e sim de mostrar um pouco o atual cenário do mercado cervejeiro. Mesmo porque, com cerca de cem marcas, é impossível falar de todas em um único texto. Espero conhecer as cervejas da Post Scriptum em breve para falar sobre elas por aqui.

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