Fábrica da cervejaria Arriaca

São quase onze da manhã de um sábado frio e chuvoso de fevereiro, quando o inverno espanhol é mais rigoroso. Apesar do clima, há cerca de 40 pessoas esperando ansiosas para o tour na fábrica da cervejaria Arriaca, localizada próxima à cidade de Guadalajara, a uns 50 minutos de Madrid.

Dentro do mundo das microcervejarias, a Arriaca já pode ser considerada uma das grandes. Depois de fazer cerveja em casa, os sócios decidiram abrir a fábrica há 3 anos e atualmente a capacidade de produção anual é de cerca de 400 mil litros, além de ser a única marca artesanal no país que comercializa sua cerveja em lata, um processo que é feito na própria fábrica, que conta com uma nave específica para o engarrafamento e enlatado.

Ainda assim, parece não ser suficiente para atender a demanda que não para de crescer, como ficou claro depois que sua Imperial Russian Stout ganhou o principal prêmio do World Beer Idol 2017, na República Checa e ficou esgotada por semanas. “A melhor cerveja de World Beer Idol é um prêmio muito importante, não só porque ganhou em sua categoria, mas porque ganhou em todas. Isso, no final é resultado de boas instalações, muito trabalho, esforço, conhecimento, informação, matérias-primas de primeira qualidade e muita paixão”, conta o CEO da Arriaca, Jesús León.

Os visitantes se mostram interessados em aprender sobre os ingredientes, o processo de produção e em provar as cervejas, é claro! Ao final do tour, durante a degustação, ouço comentários sobre o quanto são diferentes e deliciosas e como muitos estão surpresos, de maneira positiva, com essas cervejas. “O importante é que as pessoas te premiem e isso é o que vimos hoje na degustação. Provavelmente muitas das pessoas nunca tinham provado cervejas diferentes e saem daqui com uma mudança radical na forma de pensar”, explica.

Por isso,  duas cervejas da marca (blonde e trigo) são “de iniciação”, para se aproximar do grande público. “São cervejas muito fáceis de beber que um bom número de pessoas pode gostar e que são um degrau, não excessivamente elevado, para poder entrar no mundo da cerveja artesanal. Depois passar aos outros estilos é fácil. Você viu gente aqui que nunca tinha provado uma IPA e adorou. Talvez, se tivesse sido em outra circunstância, teria provocado rechaço e afastaria as pessoas da cerveja artesanal. Por isso essas cervejas de iniciação são fundamentais”.

Revolucionando o cenário

Durante o passeio, León compara a trajetória da cerveja na Espanha com a do vinho. Embora  o consumo da primeira seja maior, o segundo é mais conhecido e valorizado. “Todos (os espanhóis) temos algo de cultura de vinho, sabemos um pouco das qualidades das uvas, visitamos uma adega, sabemos o que harmoniza com um tinto. No entanto, de cerveja sabemos  muito pouco”, explica o CEO.

Longe de lamentar, a Arriaca adota essa postura de informar através de jornadas de portas abertas, degustações, eventos de harmonização.

Muitos deles acontecem em Guadalajara e arredores, já que a marca faz questão de usar água da região e de defender a bandeira de cerveja local. De fato, Arriaca vem do nome do assentamento que precedeu a cidade de Guadalajara.

León explica que o panorama cervejeiro espanhol passa por uma mudança radical. “As micro surgem em contestação a um sistema estabelecido, a um setor absolutamente imobilista há décadas na Espanha. É um movimento que reivindica a cerveja como um produto de alta qualidade organoléptica, variado, com diferentes texturas, sabores, aromas, ques se pode harmonizar com diferentes pratos e que, curiosamente na Espanha, pela forma como se estabeleceu o setor, não acontecia, quando na verdade esse país é caldo de cultivo do bom comer e bom beber”, reflete.

Processo de fabricação

Na fábrica, além das oito cervejas da Arriaca são produzidos outros diversos estilos por cervejeiros ciganos, como Freaks Brewing, Panda Beer, Jakobsland Brewers.

A Arriaca expandiu recentemente seu catálogo, que ganhou uma Session IPA e uma Red IPA, ambas disponíveis exclusivamente em lata, uma tendência no mundo craft mundial que só agora começa a chegar aqui.

O CEO explica que os espanhóis ainda relacionam o envase a um produto de baixa qualidade, quando na verdade a lata é extremamente benéfica para a cerveja. “O grande inimigo da cerveja é a luz e com a lata eliminamos isso porque ela é opaca. Além disso, quanto mais aromática a cerveja, mais ela é afetada pelo oxigênio e o fechamento da lata é mais hermético porque tem quatro barreiras”.

Exportação

León comemora a exportação das cervejas da Arriaca a países como Inglaterra, China e Estados Unidos. Na América Latina, infelizmente, ainda não chegou. “Há contatos, mas não se materializou. De fato, a exportação é algo que funciona muito lentamente. Desde o primeiro contato até que se concretiza se passa muito tempo”.

Cerveturismo

Se por aqui o enoturismo é algo popular, León diz acreditar que estamos vivenciando atualmente o “cerveturismo” – termo que eu nunca tinha escutado e curti tanto que decidi dar o nome de uma seção do blog a ele. “Há poucos lugares em Guadalajara que turísticamente atraiam 40, 50 pessoas num sábado de manhã. Te diria que não há nenhum monumento nem museu que congregue esta quantidade gente. Quase todos os visitantes são de outras cidades e agora vão comer em um restaurante que harmoniza seus pratos e cervejas e, no final, se acaba gerando um rota, assim como aconteceu com o enoturismo”.

Realmente é difícil pensar em uma combinação mais perfeita que viagens e cervejas, não? Se você vier à Espanha, não deixe de reservar sua visita à fábrica da Arriaca.

Ps. Se beber, não dirija.

Ps 2. Fotos Fernando Giménez.

Larissa

Jornalista e beer sommelier brasileira morando em Madrid desde 2011.

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